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5 livros para se apaixonar pela literatura portuguesa

Navegar pela literatura de outros países é dar um gole de outra realidade. É viajar sem sair do lugar, tudo por um punhado de folhas. Com a literatura portuguesa não é diferente: difícil não se envolver com o jeito peculiar de Saramago, ou não se identificar com algum dos heterônimos de Pessoa. Ou então, abrir aquele sorriso com as críticas cômicas e caricatas de Queiroz. 

E a gente tem como vantagem compartilhar da mesma língua. Sem precisar de traduções, nós podemos nos envolver com as características do português de Portugal, expandir o vocabulário e despertar a curiosidade para a literatura das outras regiões que fazem parte da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP). 

Se você nunca teve a oportunidade de ler obras da literatura portuguesa, listei cinco livros para quem quer se apaixonar e explorar mais. Confira!

1. Livro do desassossego (Fernando Pessoa) 

Quando falamos em literatura portuguesa, Fernando Pessoa é um dos escritores que não podem passar batido. Considerado um dos maiores nomes da poesia lusitana, o poeta é também conhecido por introduzir o movimento modernista com a publicação da revista Orpheu, em 1915.

Há quem diga que a sua obra foi um legado da literatura portuguesa para o mundo, e não é para menos! Pessoa era muito singular em seu trabalho, ora assinava com seu nome, ora com seus famosos heterônimos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, além do semi-heterônimo, Bernardo Soares. 

Fascinante é pouco para descrever a incrível capacidade de Fernando Pessoa para dar vida aos heterônimos. Ele criou personagens consistentes, com empregos, vidas, personalidades e formas distintas de ver o mundo. Quem já conhece bem o autor com certeza tem o seu heterônomo favorito!

Fernando foi curioso até no momento em que se despedia do mundo: um dia antes de falecer, na cama do hospital, escreveu a sua última frase “I don’t know what tomorrow will bring” (em tradução, “eu não sei o que o amanhã trará”). Há quem arrisque dizer que ele previu a própria morte. 

E agora que você já tem uma prévia do poeta, vamos falar da obra indicada, “Livro do desassossego”. Sem dúvidas, essa é uma leitura necessária para conhecer Pessoa, já que foi uma das obras que fundou a literatura de ficção em Portugal. 

Mas não só por isso: Livro do desassossego” foi um trabalho de anos e que nunca foi terminado. Ele reúne fragmentos variados, tanto em relação ao tema abordado, como no estilo em que foram escritos. 

Lembra dos heterônimos que foram citados? Então, este livro é “escrito” por Bernardo Soares, um funcionário de um armazém de livros que traz o contraste entre a simplicidade da sua vida com a grandeza intelectual. 

É a obra principal de prosa ficcional de Fernando Pessoa, ou pelo menos até onde se sabe, já que ainda há pesquisas em torno dos textos do autor e, até hoje, ainda há escritos que são revelados. 

Bernardo Soares traz um pouco de cada heterônimo criado por Pessoa, e nesta reconstrução é possível idealizar os processos criativos do autor e também receber um testemunho de sua vida e toda a genialidade do poeta lusitano. 

Título: Livro do desassosego 
Autor: Fernando Pessoa 
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª edição, 11 de fevereiro de 1999
Páginas: 544 páginas
Nota no Skoob: 4.6

Imagem: reprodução/Amazon

Fique com um trecho do “Livro do desassossego” para despertar a fome por esta leitura: 

“Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.” (p. 52, Companhia das Letras)

2. A cidade e as serras (Eça de Queiroz) 

De sangue brasileiro e português, Eça de Queiroz é mais um dos grandes presentes da literatura portuguesa e um dos principais autores do realismo português. 

Quem o conhece já sabe que pode esperar críticas fortes à sociedade, especialmente à igreja, muito sarcasmo e uma fuga ao estilo clássico para dar espaço a uma escrita mais livre e elaborada. 

Entretanto, quem lê “A cidade e as serras” encontra um Eça de quase 60 anos, mais calmo, menos rígido e em um momento em que atinge a sua maturidade artística, fazendo com que a obra seja uma das mais importantes e faça parte da fase pós-realista. 

Desta vez, o escritor não está preocupado em criticar diretamente a burguesia, a igreja ou o casamento; ele nos serve uma obra mais filosófica e que questiona a busca pela felicidade em uma sociedade moderna. 

Para entender a obra, é necessário conhecer o contexto em que ela foi escrita: século XIX, quando Paris era considerada o centro do mundo tecnológico, enquanto Portugal era visto como um país mais agrário e menos desenvolvido. Nesse momento, as novas tecnologias e o conhecimento humano eram os destaques e o entusiasmo do meio intelectual. 

Em “A cidade e a serras” somos apresentados ao estilo de vida rica, triste e parisiense de Jacinto, até receber a visita de seu amigo Zé Fernandes (narrador da história) e entrar em uma jornada de autoconhecimento e embates entre a vida simples versus as modernas e exaustivas cidades grandes, assim como de resgate às raízes. 

Entretanto, ao contrário do que geralmente vemos no gênero bucólico, em que a natureza é sempre uma forma de sabedoria maior, o autor deixa para o leitor o seguinte questionamento: o que é sabedoria, se esse conceito muda ao longo da história e de acordo com os valores?

“A cidade e as serras” é aquela obra que faz bem para a alma e que deixa a gente com uma dose reflexiva sobre o que é ser feliz, com os próprios pensamentos do escritor. 

Título: A cidade e as serras 
Autor: Eça de Queiroz
Editora: Ática
Edição: 3ª edição, 1 de janeiro de 2010
Páginas: 224 páginas
Nota no Skoob: 3.3

Imagem: reprodução/Amazon

3. A fada Oriana (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sophia de Mello Breyner Andresen é um dos maiores nomes femininos da literatura contemporânea lusitana, assim como a primeira mulher de Portugal a ganhar o Prêmio Camões, a maior premiação literária da língua portuguesa. 

Apesar de ter ficado por alguns anos esquecida no Brasil, o centenário da autora (que aconteceu em 2019) trouxe de novo as obras tão renomadas de Sophia, assim como o interesse das editoras em voltarem a publicar alguns livros. 

Um ponto que diferencia o trabalho da autora são as temáticas abordadas por ela. Em entrevista sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, a mestranda em estudos literários Clarrisa Xavier explica que, quando o leitor tem contato com a poética da escritora, ele começa a sua busca pelo entendimento sobre o mundo.

Apesar de ser conhecida como poeta, Sophia também brilha dentro das histórias infantis, como “A fada Oriana”, um livro que merece estar na sua estante, independentemente da sua idade. A obra apresenta ilustrações encantadoras que vão trazer toda aquela magia dos tempos de criança, e um enredo que nos faz refletir sobre as consequências do egoísmo em um olhar coletivo. 

“A fada Oriana” é uma obra que também introduz os mais pequenos à literatura portuguesa, mas também a reflexões sobre comportamento humano e escolhas.

Título: A fada Oriana 
Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen
Editora: Editora SESI-SP
Edição: 1ª edição, 23 de novembro de 2017
Páginas: 96 páginas
Nota no Skoob: 3.9

Imagem: reprodução/Amazon

4. Ensaio sobre a cegueira (José Saramago)

Pensar em literatura portuguesa é também pensar em José Saramago, único escritor da nossa língua a ser vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.

Não há dúvidas de que Saramago traz genialidade em cada página que escreve através de metáforas e simbolismos que ilustram pensamentos, sentimentos e retratos das problemáticas enfrentadas pela sociedade. 

“Ensaio sobre a cegueira” é daqueles livros que a gente lê e precisa de alguns instantes para pensar, repensar e sentir. Saramago traz o sentimento de humanidade reduzido aos afetos e necessidades básicas, assim como retrata o nosso pior e o nosso íntimo enquanto pessoas. Tudo isso através de uma narrativa sobre uma sociedade onde todos ficam gradativamente cegos, com exceção de uma personagem. A única que vê cada ato e fraqueza de todos os outros. 

Arthur Nestrovski, crítico literário que assina a primeira e segunda orelha do livro, deixa-nos uma visão interessante sobre a obra: “[…] o escritor vem nos lembrar a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. É um livro, então, sobre a ética, e é um livro também sobre o amor, e sobre a solidariedade”.

“Ensaio sobre a cegueira” é uma literatura urgente e necessária. E uma companhia perfeita para os dias de isolamento – até porque o livro também retrata a quarentena de uma pandemia de cegueira. 

Título:Ensaio sobre a cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1ª edição, 25 de outubro de 1995
Páginas: 312 páginas
Nota no Skoob: 4.6

Imagem: reprodução/Amazon

Deixo aqui um dos meus trechos favoritos do livro:

“[…] tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembramos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que nos iriam servir os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhe foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse […]” (p. 64, Companhia das Letras)

5. Sonetos (Florbela Espanca)

Por último, e não menos importante, um dos grandes nomes da poesia de Portugal, Florbela Espanca. A poeta não poderia ficar fora da lista, ainda mais quando pensamos que ela representa a emancipação literária das mulheres, falando sempre de temas particulares, o que fez com que Florbela fosse criticada por escrever muito sobre “o eu”. 

O que não falta nos sonetos de Florbela é uma dose forte de sentimentos, intensidade e dor, traços característicos da sua escrita. Um fato curioso é que a poeta fez os seus primeiros versos aos oito anos de idade, e sobre eles comentou: “já as coisas da vida me davam vontade de chorar”.

Para conhecer bem a autora, a minha dica é a coletânea “Sonetos”, que reúne quatro livros de Florbela em uma única obra. São eles: “Livro de Mágoas” (1919); “Livro de Sóror Saudade” (1923), “Charneca em flor” (1931) e “Reliquiae” (1931).

Título: Sonetos
Autor: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Edição: 3ª edição, 25 de agosto de 2014
Páginas: 188 páginas
Nota no Skoob: 4.5

Imagem: reprodução/Amazon

A literatura portuguesa tem uma imensidão de obras a serem exploradas e vale a pena começar a viagem por esse universo através de leituras tão renomadas como as que estão listadas neste texto.

Cinco livros essenciais e que vão fazer você se apaixonar pela escrita lusitana.

Aproveito para indicar outras duas listas do site Opiniões Certificadas, desta vez focadas em literatura brasileira e russa. É só clicar e aproveitar outra leva bem selecionada de livros que você precisa conhecer.

Raquel Siqueira

Jornalista e master chef de lanches vegetarianos. Adora abraçar cachorrinhos e vive acrescentando livros na sua interminável lista de leitura.

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